"Blockchain": uma palavra em evolução

Um dos primeiros obstáculos que se encontra quando se procuram informações sobre blockchain é a dificuldade em definir precisamente essa tecnologia. Pesquisar sobre o assunto é se deparar com artigos e mais artigos com descrições, conceitos e definições muitas vezes conflitantes mesmo nos seus princípios básicos. Isso quando não são superficiais demais, ou técnicos demais, ou restritos ao suporte à criptomoedas. Essa indefinição pode rapidamente se tornar um pesadelo de quem procura um entendimento maior do assunto.

O fato é que não existe hoje uma definição universalmente aceita para a palavra blockchain. Existem razões históricas para isso: as primeiras aplicações a utilizarem tecnologia blockchain (explicitamente, a plataforma bitcoin, cuja primazia na área é um dos poucos fatos aceitos de forma praticamente universal) só foram reconhecidas como tais bem mais tarde, uma vez que o termo blockchain só foi cunhado anos depois.

Enquanto isso, seu potencial inovador foi sendo reconhecido e as diferentes visões sociais e econômicas de como esse potencial deveria ser direcionado, interesses conflitantes e especulações sobre sua aplicação diversificaram o entendimento sobre o que deveria ser chamado blockchain.

Pesquisar sobre o assunto é se deparar com artigos e mais artigos com descrições, explicações, conceitos e definições muitas vezes conflitantes até mesmo ao listar quais seriam os princípios básicos dessa tecnologia

Origens do termo "Blockchain"

As frases mais onipresentes quando se fala a respeito de blockchain são variantes de que "blockchain é a tecnologia por trás da criptomoeda bitcoin". Apesar de verdadeiras, elas têm o efeito de ligar essa tecnologia fortemente, e para muitas pessoas estritamente, ao universo das criptomoedas, o que está longe da realidade. De fato, grande parte das pesquisas procura criar versões que sejam mais adaptadas para utilização em outras áreas. Porém, entre as aplicações dessa tecnologia o bitcoin é, até o momento e com pouca contestação, a mais antiga, a mais bem-sucedida e a mais divulgada para o grande público; por isso a utilização dessa referência mesmo em documentos de caráter mais técnico.

A plataforma bitcoin não começou como uma "proposta para revolucionar a tecnologia de informação e a sociedade". Seu white paper original, datado de outubro de 2008, tem um objetivo bem específico: criar um token digital atendendo a critérios de segurança, descentralização, confiabilidade e anonimato suficientes para que fosse possível utilizá-lo como moeda digital. A palavra blockchain nunca é usada: há várias referências às palavras "block" (bloco) e "chain" (corrente, cadeia, encadeamento) num mesmo contexto, e uma única vez é utilizada a expressão “chain of blocks”. Para ser justo, o próprio termo bitcoin só aparece 2 vezes no documento: no título e como parte de um endereço de internet.

Toda movimentação dos tokens da rede bitcoin é registrada em um único arquivo de dados, com cópias espalhadas por todos os nós da rede. Ele apresenta a estrutura de encadeamento de blocos citada e com o tempo passou a ser referenciado como "o blockchain do bitcoin". E sendo a manutenção da integridade, confiabilidade e imutabilidade desse arquivo um dos maiores, senão o maior, ponto chave da plataforma bitcoin, a palavra “blockchain” acabou sendo usada para referenciar o arquivo de dados, a modelagem de sua estrutura interna e também a tecnologia da plataforma como um todo.

Além das criptomoedas

Nesse meio tempo, a plataforma bitcoin atraiu atenção para seu potencial, sobretudo dos desenvolvedores. O fato é que em sua concepção original a plataforma bitcoin é composta de uma série de outras tecnologias que já vinham sendo estudadas havia anos ou décadas e sua originalidade estava na forma como essas tecnologias foram articuladas para trabalhar em conjunto numa rede descentralizada. Poderiam essas mesmas ideias ser aplicadas em outras áreas de negócio?

De início a plataforma bitcoin se provou inadequada para outras aplicações que não fossem aquela à qual originalmente se propôs. O longo tempo necessário para confirmar uma transação, os grandes gastos de energia, o surgimento de hardwares especializados (e dispendiosos) que acabaram dominando o cenário de mineração são características criticadas que não impediram que o bitcoin fosse lentamente se difundindo, porém levaram a pesquisas de alternativas tecnológicas. Alguns desses estudos inspiraram novas plataformas de criptomoedas.

Algumas opções na filosofia de trabalho do bitcoin também são incomuns para a visão tradicional de negócios e mercado. Por exemplo, o anonimato dos operadores e a publicidade das operações são opostos aos formatos mais comuns na iniciativa privada, que costuma exigir identificação entre os operadores e sigilo sobre as operações realizadas. Outro ponto é o conjunto restrito de operações possíveis, o qual torna o bitcoin mais simples e robusto, mas menos adaptável para aplicações em outras áreas.

Vale lembrar que as características de design do bitcoin citadas estão plenamente integradas a sua proposta de trabalho, sendo muitas vezes necessárias ou decorrentes dessa mesma proposta. Tentar mudá-las significa trazer outros problemas cuja solução muitas vezes exige extensa alteração na forma de trabalho em relação a inspiração original.

A questão é: quanto se pode distanciar das idéias da primeira implementação e ainda estar tratando com blockchain?

Mudando conceitos

Aparentemente, "bastante" é a resposta para a última pergunta. Pelo menos para alguns grupos. Em busca de uma implementação blockchain aplicável além do mundo das criptomoedas, surgiram muitas plataformas que vão desde "baseadas" e "derivadas" até as "marginalmente inspiradas" nos conceitos originais do bitcoin. Porém, como isso acontecia em paralelo a adoção do termo blockchain, muitas dessas iniciativas continuaram se apresentando assim.

Áreas de negócio diferente se interessam por características diferentes do blockchain, conforme suas necessidades próprias. Daí veio a prática de experimentar rearranjar, acrescentar, adaptar e alterar suas tecnologias componentes para conseguir uma plataforma adequada a cada caso, e ainda assim considerar o resultado como "tecnologia blockchain”.

Esse distanciamento é tal que que algumas implementações estão dando preferência à expressão Distributed Ledger Tecnology (DLT) ao se descreverem; entretanto, o termo blockchain ainda carrega muito peso comercial para ser ignorado.

Assim, vários grupos têm se formado, cada qual definindo blockchain da forma mais condizente para suas necessidades. E a falta de uma definição comum, apesar de parecer inócua, cobra o seu preço quando impede que as empresas consigam ver com clareza os benefícios que podem obter com adoção do blockchain, bem como quais os processos onde será vantajoso utilizá-la. Há prejuízos para a formação de novos desenvolvedores e para a colaboração entre eles. E levanta questões conforme essas definições conflitantes são incluídas nas novas legislações que procuram dar suporte legal aos contratos digitais.

Áreas de negócio diferente se interessam por características diferentes do blockchain, conforme suas necessidades próprias. Daí veio a prática de experimentar rearranjar, acrescentar, adaptar e alterar suas tecnologias componentes para conseguir uma plataforma adequada a cada caso.

Esforços para uniformizar o vocabulário sobre blockchain tem surgido, acompanhando o aumento do investimento na área. Notadamente, o comitê ISO/TC307 da International Organization for Standardization trabalha para produzir uma padronização que possa ser usada como referência pela indústria. E o governo chinês instituiu um comitê técnico visando o estabelecimento de padrões nacionais em blockchain até o final de 2019. Nesse cenário, definir necessidades e objetivos para, a partir daí, determinar o "tipo" de blockchain a ser adotado é ponto dos mais importantes para as empresas e setores que procuram os benefícios dessa nova tecnologia.

Autor: Márcio Marcelo Pelícia - Jun/2018

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